terça-feira, 26 de julho de 2022

Viagem

o beijo da quilha

na boca da água

vai - me tocando entre

o céu e o mar

o azul de outro azul


enquanto na funda transparência

sinto a vertigem da minha própria origem

e nem sequer já sei  que olhos são os meus

em que água se naufraga minha alma

se choras agora o mar inteiro me entraria

 pelos olhos



 

A demora

o amor nos condena

demoras

mesmo quando chegas antes

porque não è o tempo que eu te espero

espero - te antes de haver vida

e ès tu quem me faz nascer os dias

quando chegas

já não sou senão saudade

e as flores 

tombam - me dos braços


para dar cor ao chão em que te ergues

perdido o lugar

sò me resta água no lábio

para aplacar a tua sede


envelhecida a palavra

tomo a lua por minha boca

e a noite já sem voz

se vai despindo em ti


o teu vestido tomba

e è uma nuvem

o teu corpo se deita no meu

um rio vai aguando atè ser mar


 

a casa

sei dos filhos

pelo modo como ocupam a casa

uns buscam os recantos

outros existem a janela

a uns satisfaz uma sombra

a outros nem o mundo basta

uns batem com aporta

outros hesitam como se não

 houvesse uma saída

raras vezes sou pai


sou sempre todos os meus filhos

sou a mão indecisa no fecho

sou a noite passada entre relógio e escuro


em mim ecoa a voz

que a entrada se anuncia cheguei !

e eu rio de resposta  chegou ?

ma se nunca ninguém partiu


e tanto em mim demoram esperas

que me foi trocado por soalho

e me converti em sonolenta janela


agora eu mesmo sou a casa

casa infatigável casa que meus filhos eternamente

regressam 
 

Poemas seleccionados

adiada enchente

velho não

entardecido talvez

antigo sim

tornei - me antigo

porque a vida

tantas vezes se demorou

e eu a esperei

como um rio aguarda a cheia

gravidez de fùrias e cegueiras


o bicho perdendo o pè

eu perdendo as palavras

simples espera

daquilo que não se conhece

e quando se conhece

não se sabe o nome
 

o segredo do escritor

è anterior à escrita està na vida na forma

como ela està disponível a deixar - se 

tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano 

na ciência como em outras actividades o mais

importante não è o que chamamos cientifico

è o lado humano criou - se a ideia que o cientista

è isento de erro uma espécie de ser privilegiado

que apenas trilha pelos atalhos do rigor e da exactidão

essa aversão pelo erro è o mais ^grave dos erros è tão

vital errarmos como acertarmos devemos afastar o medo


de errar devemos o gosto de experimentar mesmo

cometendo falhas a natureza foi evoluída graças


ao erro básico que è a mutuação se os genes nunca falhassem

não haveria a diversidade necessária para  a continuidade 


da vida os processos vitais exigem a mesmo tempo o rigor

e o erro não podemos ter medo de não saber o que devemos

 recear è o não termos inquietação para passarmos passarmos

a  saber


o que pode suscitar uma pequena história è quando por trás

de um cientista reside um homem com suas ignorâncias

suas incertezas e suas crenças tantas vezes muito pouco

cientifico


sò se escreve com intensidade se vivermos intensamente

não se trata apenas de viver sentimentos mas de ser vivido

por sentimentos


há quem acredite que a ciência è um instrumento para governar

o mundo eu preferia ver no conhecimento cientifico um meio

não para alcançar não domínios mas harmonias


criamos linguagens de partilhas com os outros incluindo os seres

que acreditamos não terem linguagem


entendermos e partilhar a linguagem das árvores os silenciosos

códigos das pedras e dos astros


conhecermos não para sermos donos  ma para sermos mais

companheiros das criaturas vivas com quem partilhamos

este universo para escutarmos histórias que não são em

todo o momento contadas por essas criaturas


 

a escrita

não è uma técnica e não se constrói

um poema ou um conto com se faz

uma operação aritmética a escrita

exige sempre a poesia e a poesia

è um outro modo de pensar que

està para além da lógica que a escola

e o mundo moderno nos ensinam sem

a arrogância de a tentarmos entender

apenas com a ilusória tentativa de nos

tornarmos irmãos do universo
 

In Mia Couto

sou escritor e cientista vejo as duas actividades

a escrita e a ciência como sendo vizinhas e

complementares a ciência vive da inquietação

do desejo de conhecer para além dos limites

a escrita è uma falsa quietude a capacidade

de sentir sem limites ambas resultam da recusa

das fronteiras ambas são um passo sonhado 

para là do  horizonte a Bibliologia para mim não

è apenas uma disciplina cientifica mas uma história

de encantar a história das mais antiga Epopeia que è 


à vida è isso que eu peço a ciência 

que me faça apaixonar è o mesmo

que eu peço a literatura
 

Viagem

o beijo da quilha na boca da água vai - me tocando entre o céu e o mar o azul de outro azul enquanto na funda transparência sinto a vertigem...